Os Mutantes, de novo
Bem, tudo começou, no Brasil, em 1961, na tradicional editora GRD, baluarte nacional da ficção científica. Foi quando o livro Os Mutantes, de John Wyndham, foi lançado no Brasil. E provocou reações suficientes para influenciar a antiga banda de rock O'Seis a adotar o mesmo nome do livro, levando Arnaldo, Sérgio e Rita aos píncaros da glória e à liderança da mudança do paradigma acústico até então predominante na velha guarda da música brasileira, ajudando a moldar a MPB (à época) moderna. Mas a segunda encarnação d'Os Mutantes no Brasil já vinha seguida da terceira, aqueles mutantes que todos nós conhecemos dos quadrinhos, dos desenhos animados e dos filmes, liderados pelo Professor Xavier, que revolucionaram uma indústria na chamada Era de Bronze dos quadrinhos. Mas, à parte de lideranças, é a quarta encarnação que me interessa aqui. Com inspirações em todos eles, na inovação, nos poderes e no mistério, Os Mutantes, novela da Record que estreou há poucos minutos, é a prova da coragem a que me referi no ano passado, quando sua célula mater, Caminhos do Coração, apontou os rumos corajosos do fantástico sem negar nunca suas influências.O sucesso de CdC abriu caminho para que os elementos tradicionais de uma novela fossem postos, um a um, de lado, dando espaço para a aventura típica de seriados estrangeiros. Sem o conservadorismo da Globo a segurar as rédeas, sem a visão estreita de sempre querer enfiar humor em tudo para deixar feliz o público 'Homer' (ao qual William Bonner se referiu, numa clara sintonia com a emissora em que trabalha), Os Mutantes nasce com um universo todo criado em mais de um ano de uma bem construída trama. Agora, é um universo ficcional pronto para funcionar. Um spin-off que promete ser muito bem sucedido, coisa rara na tevê nacional (ainda mais em novelas: lembro das fases da novela Os Imigrantes e das novelas sequenciais Cavalo Amarelo e Dulcinéia vai à Guerra, todas pela Bandeirantes nos anos 1980).
Acredito que o peito da Record em brigar pelo horário nobre com essa novela é também um indício de que, a partir de agora, a brincadeira acabou. Se os mutantes estarão em guerra na tela, fora dela a guerra pode ser ainda mais sangrenta. Mas sem os erros de Pantanal, produto único sem nenhuma base por trás: agora é difícil derrubar a estrutura do RecNov da Record. E os executivos da Platinada, aqueles que impediram pela segunda vez o beijo homossexual masculino no fim de uma novela, devem saber que estão morrendo. Eles só querem seu mundinho perfeito preservado até que se aposentem. E, assim, ajudam a enterrar, bem aos pouquinhos, o poder de uma televisão que, um dia, já teve 100% das tevês ligadas no mesmo horário em que a atual disputa pela audiência acontece.
Como editor de ficção científica, me entusiasmo com a popularização junto ao público. Como entusiasta do gênero, acho que é a chance de se fazer isso ir cada vez mais para a frente, para consolidar essa vertente literária no Brasil. Se o fandom radical abrir a sua cabeça, não se fechar em si mesmo e perceber a imensa oportunidade à sua frente, ele deixará de existir do modo que é hoje para um bem maior: se ampliar cada vez mais e mais. Afinal, ser radical nesse quesito não adianta e muita gente já percebeu.
É fundamental que se dê uma chance à novela. O público médio já deu aval à trama, por que não o fandom? É a porta que todos sempre quiseram que fosse aberta para que séries e filmes de ficção científica fossem produzidos no país. A quem critica, que continue criticando (é fundamental pra que tudo melhore), mas aproveitem. Senão, os próprios fãs correm o risco de enterrar a popularização final de um gênero literário que, reconhecidamente, é o que mais contribuiu para o avanço humano nos últimos 150 anos.
E tenho dito.




