3.6.08

Os Mutantes, de novo

Bem, tudo começou, no Brasil, em 1961, na tradicional editora GRD, baluarte nacional da ficção científica. Foi quando o livro Os Mutantes, de John Wyndham, foi lançado no Brasil. E provocou reações suficientes para influenciar a antiga banda de rock O'Seis a adotar o mesmo nome do livro, levando Arnaldo, Sérgio e Rita aos píncaros da glória e à liderança da mudança do paradigma acústico até então predominante na velha guarda da música brasileira, ajudando a moldar a MPB (à época) moderna. Mas a segunda encarnação d'Os Mutantes no Brasil já vinha seguida da terceira, aqueles mutantes que todos nós conhecemos dos quadrinhos, dos desenhos animados e dos filmes, liderados pelo Professor Xavier, que revolucionaram uma indústria na chamada Era de Bronze dos quadrinhos. Mas, à parte de lideranças, é a quarta encarnação que me interessa aqui. Com inspirações em todos eles, na inovação, nos poderes e no mistério, Os Mutantes, novela da Record que estreou há poucos minutos, é a prova da coragem a que me referi no ano passado, quando sua célula mater, Caminhos do Coração, apontou os rumos corajosos do fantástico sem negar nunca suas influências.

O sucesso de CdC abriu caminho para que os elementos tradicionais de uma novela fossem postos, um a um, de lado, dando espaço para a aventura típica de seriados estrangeiros. Sem o conservadorismo da Globo a segurar as rédeas, sem a visão estreita de sempre querer enfiar humor em tudo para deixar feliz o público 'Homer' (ao qual William Bonner se referiu, numa clara sintonia com a emissora em que trabalha), Os Mutantes nasce com um universo todo criado em mais de um ano de uma bem construída trama. Agora, é um universo ficcional pronto para funcionar. Um spin-off que promete ser muito bem sucedido, coisa rara na tevê nacional (ainda mais em novelas: lembro das fases da novela Os Imigrantes e das novelas sequenciais Cavalo Amarelo e Dulcinéia vai à Guerra, todas pela Bandeirantes nos anos 1980).

Acredito que o peito da Record em brigar pelo horário nobre com essa novela é também um indício de que, a partir de agora, a brincadeira acabou. Se os mutantes estarão em guerra na tela, fora dela a guerra pode ser ainda mais sangrenta. Mas sem os erros de Pantanal, produto único sem nenhuma base por trás: agora é difícil derrubar a estrutura do RecNov da Record. E os executivos da Platinada, aqueles que impediram pela segunda vez o beijo homossexual masculino no fim de uma novela, devem saber que estão morrendo. Eles só querem seu mundinho perfeito preservado até que se aposentem. E, assim, ajudam a enterrar, bem aos pouquinhos, o poder de uma televisão que, um dia, já teve 100% das tevês ligadas no mesmo horário em que a atual disputa pela audiência acontece.

Como editor de ficção científica, me entusiasmo com a popularização junto ao público. Como entusiasta do gênero, acho que é a chance de se fazer isso ir cada vez mais para a frente, para consolidar essa vertente literária no Brasil. Se o fandom radical abrir a sua cabeça, não se fechar em si mesmo e perceber a imensa oportunidade à sua frente, ele deixará de existir do modo que é hoje para um bem maior: se ampliar cada vez mais e mais. Afinal, ser radical nesse quesito não adianta e muita gente já percebeu.

É fundamental que se dê uma chance à novela. O público médio já deu aval à trama, por que não o fandom? É a porta que todos sempre quiseram que fosse aberta para que séries e filmes de ficção científica fossem produzidos no país. A quem critica, que continue criticando (é fundamental pra que tudo melhore), mas aproveitem. Senão, os próprios fãs correm o risco de enterrar a popularização final de um gênero literário que, reconhecidamente, é o que mais contribuiu para o avanço humano nos últimos 150 anos.

E tenho dito.