22.7.08

Pablo Morales

Um dia eu descobri que ia pra Itália. Daí eu precisava de um passaporte. Daí eu precisava de uma foto para ele. Daí nenhum fotógrafo acertava a porra da foto. Daí eu arrumei um suporte pre numeração pequeno igualzinho ao usado pra datar e coloquei a data do dia. Daí eu peguei uma camisa dos anos 70 do meu pai que me servia muito bem. Daí eu já estava com uma cara de acabado e não existia photoshop fácil. Daí alguém que tava passando tirou uma foto 10x15 minha, com um fundo neutro por trás. Daí o cara da revelação disse que a máquina conseguia clarear a foto. Daí eu fiz doze cópias. Daí eu estiletei, uma por uma, no tamanho 5x7. Daí eu fiz o passaporte. Daí dei umas pros parentes (as melhores) e guardei poucas (as piores). Daí eu fiz, muito tempo depois, uma oficina com o Nelson de Oliveira. Daí na oficina estava a Vanessa Barbara. Daí o Nelson passou um exercício envolvendo a foto de outrem. Daí tive que dar uma foto minha pra Vanessa. Daí ela contou, enfim, a história de Pablo Morales.

:: PABLO MORALES ::
inspirado em uma 3x4 do adorável e "cara-de-poucos-amigos" Delfin Fusco Morales

Em cinco de junho de 1999, talvez porque estivesse aborrecido, Pablo Morales decidiu sair de casa e fazer algo muito mau. Alguma coisa bem perversa, como cuspir no Papa (mais informações acima) ou esmurrar um porquinho filhote. Colocou a camisa de ir à missa, penteou o cabelo e saiu às ruas de La Paz.

Fazia sol lá fora. O malfeitor boliviano pisou no canteiro de begônias da vizinha e de lá ficou observando a rua: crianças com fitas nos cabelos brincavam com grandes bolas plásticas, velhinhos dançavam salsa com suas respectivas senhoras (e com as senhoras dos outros, porque nessa idade a gente pode tudo), donzelas de boa índole bordavam em ponto arraiolo, cãezinhos saltitavam e ouvia-se no horizonte o cantar dolente de uma rolinha. Pablo Morales estava ficando enjoado. Pablo Morales não escapara do presídio para fazer figuração em uma pintura do Norman Rockwell.

Ajeitou a gola e caminhou, com cara de poucos amigos, rumo a uma das senhoras que descansavam da salsa. Dona Esmeralda tinha oitenta anos e uma sandália de salto. Descalça no meio fio, ela apreciava a doce e ingênua brincadeira das crianças, sem saber que em sua direção vinha um desgovernado elemento de camisa cor-de-laranja. Pablo Morales se aproximou de Dona Esmeralda, debruçou-se junto ao ouvido da boa senhora e — finalmente — assoprou.

Bastaram dois segundos para que a velhinha começasse a gritar, e a chorar, e a bater em Pablo Morales com suas tamancas. Ninguém foi acudi-la. Fez-se um silêncio que espantou a rolinha. Dona Esmeralda entrou em desespero e enlouqueceu, enquanto Pablo Morales se dirigia a uma das crianças. Mais uma vez, soprou vigorosamente no ouvido da vítima. Fez o mesmo com o resto da turma, que logo abandonou as bolas de plástico e saiu correndo. O horror dominou muitas delas. Diz-se que algumas rasgaram as roupas; outras foram pintar.

Um a um, Pablo Morales foi distribuindo sopros nos ouvidos da vizinhança. Algumas das vítimas apenas fechavam os olhos. Outras, até riam. Um silêncio estranho tomou aquele domingo e os outros que vieram, em que Pablo Morales soprou seus demônios pela capital da Bolívia, libertando-os em pequenos bocados nos ouvidos das pessoas satisfeitas demais. Em quatorze de junho, Pablo Morales finalmente conseguiu soprar tudo o que precisava e se sentiu razoavelmente bem. Pela primeira vez na vida, respirou aliviado. Ele só queria um sax.